10 dicas para organizar uma festa junina educativa

É possível fazer uma festa junina legal e ainda comprometida com a aprendizagem das crianças e dos adolescentes

Educar



Foto: barraca da pescaria

     Pé de moleque, canjica, curau, pamonha, bolo de milho, quentão, bandeirinhas, fogueira, chapéu de palha, sanfona e arraiá. Sim, estamos falando de festa junina. Todo mês de junho é assim: tiramos do armário as camisas xadrez e os vestidos de chita, pintamos sardinhas nas meninas e bigodinhos nos meninos e vamos satisfeitos para a festa na escola, pensando em todos os quitutes deliciosos que nos aguardam.
    Esquecemos o principal: o significado da festa. Você conhece as origens das festas juninas? Sabe por que comemos tantas iguarias de milho e de onde vêm as danças? E o colégio do seu filho, aproveita as festas juninas para preencher buracos na grade horária e engordar o caixa ou utiliza os festejos para ensinar alguma coisa para as crianças?
     Embora seja uma tradição consagrada e rica da cultura popular, muitas escolas organizam festas de São João, Santo Antonio e São Pedro que pouco, ou nada, contribuem para a aprendizagem dos alunos. O Educar Para Crescer consultou alguns pedagogos e um antropólogo e elencou algumas dicas para garantir que a sua festa junina seja uma verdadeira aula.

1- Procurar o sentido original da festa:
Qual a origem da festa junina? Descobrir isso pode ser o primeiro passo para a contextualização da festa. E é importante motivar os alunos a buscarem esta resposta. Saber que a tradição vem dos festejos de agradecimento aos santos pela colheita do meio do ano e que, por isso, a maioria dos quitutes é feita de milho, por exemplo, pode despertar neles o interesse pela história. "É necessário recuperar o porquê da tradição da quadrilha, das comidas, da fogueira, para que a festa junina não vire uma mera caricatura do mundo da roça", diz o antropólogo Jadir de Morais Pessoa, professor titular da Universidade Federal de Goiás, especialista em folclore.

2- Descaricaturizar  o homem do campo:
Homem do campo não é Jeca Tatu. É importante apresentar o campo de uma nova maneira. Tirar o olhar de deboche sobre o caipira, manifesto muitas vezes pelas roupas exageradas ou por posturas imbecilizadas. "Trazer uma pessoa da roça para contar dos saberes, descaricaturizar o homem rural. Festejá-lo como sujeito portador de saberes", indica o antropólogo Jadir de Moraes.


3- Resgatar as manifestações culturais:
Um dos elementos mais importantes das festas juninas são as danças e as músicas populares. Muitas escolas contratam profissionais especializados em cultura popular para valorizar e aprofundar esse universo e desenvolver com os alunos as danças e as canções típicas. Elas não se limitam a contratar sanfoneiros e conjuntos para meras apresentações, fazem mais: colocam os alunos para dançar e até para criar as músicas. "No colégio Vera Cruz, trabalhamos há 10 anos danças típicas de todo o Brasil. As crianças de 5 anos apresentam a "Congada", dança de Minas Gerais; as de 6 anos dançam o "Bumba meu Boi", do Maranhão; e as de 7 anos fazem a tradicional quadrilha", conta Elizabeth Menezes, professora de educação corporal do colégio Vera Cruz. 
A festa junina pode ser ótima oportunidade também para apresentar novos instrumentos musicais para as crianças. 
No Vera Cruz, a professora traz instrumentos folclóricos como a caixa do Divino Espírito Santo, a matraca, os gungas e os chocalhos. "O mais lindo é ver o quanto as crianças aprendem. Esse ano um aluno criou uma música que nós vamos utilizar na dança: "Um triângulo, dois quadrados, céu e terra, sol e chuva formam o planeta terra de todo mundo", emociona-se a professora, cantando a canção do aluno Theo Vendramini Sampaio, de 5 anos.


4- Envolver os estudantes no assunto:
Como motivar os estudantes e trazê-los para o projeto? A escola Viva, de São Paulo, utilizou, neste ano, um recurso muito simples: fixou painéis por toda a escola. Os cartazes, confeccionados pelos próprios alunos, traziam curiosidades e atraiam a atenção para o evento. "Foi uma maneira de despertar a atenção nos mais novos. Os painéis traziam informações do tipo: você sabe por que tem fogueira na festa junina? Além disso, traziam fotos dos professores em festas juninas, quando crianças. A brincadeira era adivinhar quem era o professor", disse Marta Campos, coordenadora geral do Ensino Fundamental I da Escola Viva.


5- Trazer os alunos para a preparação da festa:
As festas juninas escolares devem ser feitas por e para os alunos. O objetivo é estimular o senso de autonomia e de cooperação, reforçando a importância do trabalho comunitário na escola. Para isso, é importante envolver os estudantes em todo o processo, desde a confecção dos estandartes e bandeirinhas à organização das brincadeiras. "Todos os alunos estão envolvidos na organização da festa. Mas alguns têm responsabilidades maiores. Eles coordenam os preparativos, fazem reuniões com a diretoria, apresentam relatórios e tem autonomia para decidir", afirma Wanilda Tieppo, assistente de direção da escola da Vila.


6- Associar o conteúdo escolar à festa:
A preparação da festa pode e deve estar atrelada ao conteúdo aplicado em sala de aula. Na escola Oswald de Andrade, por exemplo, cada classe é responsável por uma barraca e cada barraca apresenta transversalmente o projeto trabalhado em classe. "A turma que está estudando os alimentos, por exemplo, preparou uma barraca relacionada ao assunto", destaca Roberta Ferrari Rodovalho, coordenadora assistente do Colégio Oswald de Andrade, de São Paulo.


7- Valorizar o brincar:
Uma das tradições da festa junina são as brincadeiras: pescaria, boca do palhaço, jogo da argola, corrida de sacos, pau de sebo, entre outros. Os jogos juninos são a grande diversão da garotada e podem ser uma boa maneira de transmitir valores de cidadania para os alunos. Dois bons exemplos de valorização do lúdico acontecem nas escolas Vera Cruz e Oswald. Na primeira, as próprias crianças são responsáveis pela confecção das prendas. "Elas fazem colares, cadernos, trabalhos em argila e todo tipo de brinquedos. Vale tudo, o importante é a participação", diz Elizabeth Menezes. Já no Oswald, não há brindes para os vencedores. "O objetivo é estimular a brincadeira pela brincadeira", conta Roberta Ferrari Rodovalho, coordenadora assistente do colégio Oswald de Andrade, de São Paulo.

8- Estimular a participação da família:
A participação dos pais e familiares é importante para as festas juninas em vários aspectos. Para começar, quando comparecem os pais estimulam a criança e reforçam a auto-estima. Mas eles também podem contribuir na organização. No Colégio Oswald de Andrade, por exemplo, os pais conjuntamente com os filhos são convidados a preparar e a trazer os comes e bebes. "A participação dos pais é muito importante para nós. Cabe a eles trazer as comidas, que ficam todas dispostas em uma mesa. O lanche é comunitário, não tem custo, é só chegar e pegar", diz Roberta Ferrari Rodovalho, assistente de direção do Colégio Oswald.


9- Não fazer a festa no horário das aulas:
É muito importante não atrapalhar a rotina e a programação escolar por causa da festa. A começar pela escolha da hora e da data do evento. Não pode ser no horário letivo. O melhor é fazer aos sábados, domingos ou depois das aulas. "Nunca fazemos nossas festas em período letivo, temos um programa a seguir e não descumprimos. As festas juninas acontecem sexta-feira à tarde, único dia da semana que não funcionamos em período integral", explica José Carlos Alves, diretor do Colégio de Aplicação do Pernambuco, escola pública com a segunda melhor média no Enem e 14ª colocada no ranking nacional.


10- Não usar a festa para arrecadar  dinheiro:
A festa junina não pode ser apenas um pretexto para se arrecadar dinheiro para melhorias na escola. Precisa se auto-sustentar, é claro, mas não precisa gerar lucro. Algumas escolas, como a escola da Vila, em São Paulo, preferem utilizar a festança para juntar recursos para instituições de caridade. "Não cobramos entrada. Pedimos para que as pessoas tragam doações, que repassamos à ONGs que ajudam pessoas carentes. Em 2008 e em 2009, estamos arrecadando utensílios de higiene e roupas para uma instituição que auxilia moradores de rua", disse Wanilda Tieppo, assistente de direção da escola da Vila.
http://educarparacrescer.abril.com.br

Sobre as causas da crescente diferença entre escolas públicas e privadas

 

Conforme o post abaixo, publicando reportagem do portal UOL, tem crescido a diferença entre o desempenho de escolas públicas e privadas. Suas causas, aparentemente complexas, podem ser vistas e apontadas até com certa facilidade. Resumindo, passa essencialmente pela gestão, pelo mau espírito de determinada visão do serviço público e pelo(perverso) corporativismo que logra colocar sob tapetes muita sujeira que jamais existiria na escola privada.

Estou trabalhando nesse artigo. Em breve.

Cresce diferença entre escolas públicas e privadas

 

O fosso que separa as escolas públicas das privadas no País aumentou nos últimos três anos. A distância entre as pontuações obtidas pelos estudantes das duas redes, que chegava a 109 pontos em 2006, cresceu e atingiu até 121 no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) 2009. Mais do que pontuações diferentes, os números indicam níveis de conhecimento distintos em leitura, matemática e ciência.

Isso quer dizer que enquanto o aluno que estuda numa escola particular alcança 519 pontos em média - o nível 3 na escala de proficiência (patamar considerado razoável pelos organizadores da avaliação) -, o da pública (federal, estadual e municipal) faz 398 pontos e não sai do primeiro nível de desempenho.

Em outras palavras, com 15 anos, os alunos das escolas particulares conseguem ao menos ler um texto e extrair sua ideia principal, identificando argumentos contraditórios e pouco explícitos. Também são capazes de relacionar informações com situações do cotidiano. Estudantes da rede pública só entendem informações explícitas e não são capazes de perceber trechos mais importantes numa leitura.

A exceção nessa comparação fica por conta da rede pública federal, um conjunto pequeno de ilhas de excelência mantidas pelo governo federal que organizam todos os anos processos seletivos bastante disputados entre estudantes - e acabam ficando com os melhores alunos. A pontuação deles está próxima da média dos países desenvolvidos.

Em matemática e ciências, a discrepância continua - e também registra aumento. Em 2003, a diferença de pontuação em matemática era de 109 pontos. Em 2006, saltou para 117 - com os estudantes de toda rede pública incapazes de realizar operações com algoritmos básicos, fórmulas ou números primos.

Em ciências, foi de 107 para 115 a diferença de pontuação entre as redes. Nos dois casos, a distância representa mais de um nível de proficiência na escala de conhecimentos. No nível 1, alunos da rede pública não conseguem explicar como ocorrem fenômenos cotidianos, como ciclo da água na natureza.

 

Repetência

Cerca de 40,1% dos alunos brasileiros repetem ao menos uma série durante a escolaridade básica. O índice do Brasil só é menor que o da Tunísia, que tem 43,2%, e o de Macau, o primeiro lugar, com 43,7%. A repetência de séries é um dos maiores problemas do sistema educacional dos países mais pobres, como é o caso do Brasil. Entre os países mais ricos, é muito raro utilizar a repetência como mecanismo do sistema de ensino. É o caso do Japão, Coreia e Noruega, onde essa mesma taxa é de 0% - o que significa que não há alunos repetindo séries.

No Brasil, a questão é complicada porque há dois tipos de sistema: o seriado e o de ciclos, este também conhecido como progressão continuada. No primeiro, existe uma idade teórica adequada a cada série. Ou seja: o currículo é organizado de modo que disciplinas devem ser cumpridas em um certo período de tempo - denominado série.

Na progressão continuada, não há repetência ano a ano. Os ciclos substituem as séries tradicionais e o aluno só pode ser reprovado ao fim de duas, três ou quatro séries. No ensino fundamental, há dois ciclos - 1.º a 5.º ano e 6.º ao 9.º - e a reprovação só ocorre ao fim dessas etapas. O sistema está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

A introdução dos ciclos no ensino fundamental dividiu especialistas: alguns enxergavam como uma tentativa de mascarar o problema da repetência, já que não retém as crianças, mesmo que elas não aprendam nada; outros, como um avanço para garantir a permanência e o aprendizado dos alunos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

In: http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/12/08/cresce-diferenca-entre-escolas-publicas-e-privadas.jhtm

Quase metade dos alunos brasileiros de 15 anos não atinge nível básico de leitura no Pisa

 

Apesar de o país ter atingido a média de 412 pontos em leitura no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) 2009 - o que equivale ao nível 2 de proficiência - 49,6% dos 20 mil brasileiros avaliados estão em níveis de proficiência menores. O nível 2 é considerado como básico ou moderado pelo exame.

Leitura completa em:

http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/12/09/quase-metade-dos-alunos-brasileiros-nao-atinge-nivel-basico-de-leitura-no-pisa.jhtm

A função social da escola

 

O homem novo, aquele que se desenha nesse início de século XXI, enfrenta desafios que se mostram extraordinários – principalmente em países periféricos, quais sejam aqueles em que as condições estruturais agravam as questões metafísicas.

Dentre os problemas mais graves, dois se destacam no Brasil, principalmente por serem intercambiáveis: a violência urbana e a educação. Necessitamos então de alguns “olhares” que tornem possível a compreensão de sua natureza.

Primeiro olhar: ausência de ética, considerada como “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade[i]”. Decerto, ainda que haja um flagrante aumento de religiosidade no país, com frequentes manifestações e assunções diversas, a progressão constante da violência, em todos os seus matizes, provoca desânimo e sensação de impotência.

Essa aeticidade se dá, entre outros fatores, por um recrudescimento de uma classe política distante da sociedade organizada – em que aparentemente a mudança da capital parece ter tido papel importante – com recorrentes escândalos de desvio de finalidade dos três poderes, em que a corrupção ganha destaque.

Além disso, uma mal compreendida liberalidade nas relações familiares provocou uma perda do princípio de autoridade, levando a um progressivo surgimento de gerações cada vez menos comprometidas com valores familiares, derivando para um descomprometimento geral com os valores da sociedade.

Um pouco além, a sociedade de inovação tecnológica provoca uma sensação constante de dejà vu, como se nada fosse anormal ou impossível. Isso leva, principalmente os jovens, a uma impressão de potencialidade máxima e, no limite, a certa irresponsabilidade: já que tudo é possível, todas as falhas podem ser, a bel-prazer, consertadas.

Segundo olhar: ausência de esperança.

Se a sociedade de inovação tecnológica, para além da sensação de dejà vu, consegue levar o homem a uma situação de progresso que atinge mesmo as classes menos favorecidas – e a expansão do uso de telefonia móvel é disso bom exemplo –, nem por isso foge à regra que estabelece que se todo mal traz algum bem embutido, todo bem traz também em seu bojo algumas mazelas.

As mazelas da sociedade tecnológica são visíveis e não poucas; a principal, porém, é a evaporação das vagas de trabalho (descontando-se aí as novas que surgem, mas trazem a exigência de qualificação que foge ao padrão dos países ainda atrasados, como o nosso).

Com a inevitável formação de um enorme exército de desempregados (ou subempregados), a conta tende a ser paga por aqueles que estão na base da formação de mão-de-obra, qual seja a dos jovens de classes menos favorecidas que, sem qualificação e sem experiência, terminam por se submeter à informalidade ou, no extremo, ao crime – organizado ou não.

Isso leva a um terceiro olhar: o da criminalidade crescente.

Mais preocupante até do que a sensação de aumento dos níveis de violência – note-se que os números oficiais indicam redução gradativa – é o fato de que a criminalidade se apresenta com forte indicativo etário: são os jovens, em sua maioria, que estão compondo essa parcela marginal da sociedade.

Dentre os jovens, e descomprometidos com a sociedade pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, os adolescentes têm formado outra mão-de-obra, base do crime organizado, e têm recheado as estatísticas da violência urbana. Afinal, difundiu-se o dogma de que aquele sujeito é praticamente inimputável, passível – mesmo nos casos mais extremos – de medidas socioeducativas que não correspondem à dimensão dos delitos que cometem.

Daí que a sociedade esteja amiúde acuada; e as famílias, reféns da ausência de ética que regula as relações sociais, estejam sem esperança. O reflexo é a violência, que se torna a ordem do dia: em uma sociedade de espertos, vence aquele que ousar mais, movimentar-se antes e usar toda malícia possível.

Chegamos então a um ponto fundamental: o da importância da função social da escola, tema desse artigo.

Não obstante a necessidade de políticas públicas de fortalecimento da família, com a possível formação de grupos de discussão das práticas cotidianas desse microcosmo, a escola comparece como um elemento essencial na formação plena do indivíduo.

Supomos que a escola do século 21 não pressupõe apenas o papel de espaço de ensino-aprendizagem; antes, está carregada de uma simbólica representatividade: é ali que o ser ganha dimensão, construindo sua personalidade, dotada ou não de plenitude.

É na escola que a criança se depara não apenas com rudimentos do saber, construindo competências e habilidades, mas antes adquire consciência de si mesmo, estabelecendo normas de participação na sociedade e de sua relação com o outro.

E por mais que esta seja uma figura que perde relevância (fundamentalmente por sua filiação a velhas práticas de uma escola ultrapassada), o professor ainda exerce uma influência que precisa ser devidamente dimensionada.

O professor, núcleo vivo e essencial da escola, serve de modelo e inspiração a meninos e meninas, e tão mais profundamente quão seja a menor idade de seus alunos.

Daí que a escola não possa prescindir de métodos de escolha e avaliação para composição de seus quadros.

O mau professor, qual seja aquele que literalmente enrola em suas aulas, acumula faltas, age rotineiramente de modo grosseiro e não demonstra apreço pelo que faz, indica ao seu discípulo que essa é uma prática aceitável.

Por isso, pretendemos que a escola do século 21 tenha em sua composição docente elementos que passem por rigorosas pré-avaliações, aquando de seu concurso para o magistério, e sejam constantemente avaliados em suas práticas.

A escola, como no poema de Alejandro T. Gomes, não pode perder de vista que é “honra do homem proteger o que cresce”; e a humanidade somente chegará a níveis bons de civilização quando souber criar as condições necessárias para constituição de sujeitos realmente plenos, dotados de ética, de esperança e sem qualquer liberalidade quanto à violência.

O professor, elemento-chave nesse processo, deve ter em vista que seu papel é determinante, que sua função social (que se confunde com a escola) é a de maior, inquestionavelmente maior, importância para a sociedade.

No momento em que a escola, organismo vivo dotado de um sentimento comum, e o professor, condutor de suas práticas, assumirem a grandiosidade de seu papel na construção de uma sociedade mais fraterna, justa, comprometida com a ética e repleta de bons valores morais e religiosos, teremos um tempo novo, com o homem do século 21 realmente se fazendo presente em nosso país.


[i] Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Função Social da Escola (prenúncio)

Candido Portinari. Menino e Canavial
A esta hora exatamente / há uma criança na rua. / É honra do homem proteger o que cresce, / cuidar que não haja infância dispersa nas ruas. / Evitar que naufrague / seu coração de barco, / sua incrível aventura de pão e chocolate. / Transitar seus países de bandidos e tesouros / colocando uma estrela no lugar da fome. / De outro modo é inútil / ensaiar na terra a alegria e o canto, / de outro modo é absurdo / porque de nada vale se há uma criança na rua... / E a esta hora exatamente há uma criança na rua. (Armando Tejada Gomez)

Ensaios 21 - Política e Atualidades

Em meu último post, fiz referência à "tendência fascista que a passos largos se apossa do país". Houve quem me questionasse, pedindo uma mais elaborada análise. Daí a criação, para alguma ousadia na área de Política e Atualidades, do blog Ensaios 21 (http://ensaios-21.blogspot.com). Fica aqui meu convite e meu agradecimento pela visita.

O Quarto Elemento



O Brasil, estranho continente fincado à força na América, padece de muitos males; todos em grau superlativo: Educação, Saúde, Segurança Pública, Transportes, Infraestrutura. Dentre esses, considerada primeiramente a tendência “fascista” que a passos largos se apossa do país, a Educação precisa ser urgentemente equacionada. 
A violência nas escolas, em seus múltiplos aspectos, revela tão-somente um ângulo da complexa estrutura.
Uma breve desconstrução do processo nas escolas públicas: professores desmotivados e, no mais das vezes, sem convicção quanto às finalidades pedagógicas; alunos oriundos de comunidades marginais, onde a violência da miséria determina o rumo de suas vidas; servidores, não raramente terceirizados, sem o mínimo preparo para o lugar que ocupam; pais absolutamente desorientados. 
Apenas que não se trata aqui da pura desconstrução, sujeita aos rigores críticos de vazio epistemológico, como denunciado foi muitas vezes Jacques Derrida. 
Uma primeira proposta – e retomo, por promessa, o post Das causas e contracausas da decadência da escola – é a da imediata mudança de atitude desta em relação àqueles que representam o quarto elemento da comunidade escolar, qual seja, depois de professores, alunos e gestores, os pais. 
Uma estreita e harmoniosa relação entre a escola pública e os pais pressupõe o desenvolvimento de novas ferramentas de aproximação e encantamento; algo além das reuniões, pontuais ou esporádicas, feitas sempre com objetivos imaculadamente técnicos, voltados mais a uma “prestação de contas” do comportamento e do desempenho do aluno e que não foge à habitual superficialidade. 
Mas quais são essas ferramentas? As idéias são muitas. Sugiro, por ora, três: 
Uma: criação, via grupo de trabalho institucional, de canal permanente com os pais, para que os mesmos estejam constantemente informados da rotina escolar – e tal canal deverá utilizar as diversas mídias disponíveis, sem informatofobias ou informatolatrias. 
Duas: concretização, sem subterfúgios ou manobras evasivas, do dispositivo legal que dispensa aos pais vagas no Conselho Escolar. 
Três: elaboração, com o coletivo de pais, de plano de trabalho anual para pais com disponibilidade de tempo, em regime de voluntariado. 
Os resultados esperados? Pais comprometidos com a escola (e com a educação) de seus filhos; alunos estimulados pela refundação do espaço tão essencial às suas vidas, com melhor auto-estima; professores menos tensos – pela esperada diminuição dos índices de violência – e mais dispostos pelo ambiente propiciado. 
A escola, como lugar privilegiado de desenvolvimento da criança e do adolescente, necessita urgente derrubar os altos e densos muros com que parece se proteger da comunidade de seu entorno. A presença dos pais, com suas complexas peculiaridades, pode ser o passo necessário para que a profunda revolução aconteça.

Educação e Sociedade

Uma ligeira análise da Educação no Brasil, seguindo um senso quase comum às autoridades em todos os níveis, pode levar à conclusão de que houve nos últimos anos um considerável avanço. Nada mais enganoso. Da educação básica ao ensino superior, há uma flagrante reversão dos indicadores de qualidade que a universalização não consegue justificar.
Na educação básica, a redução nos números da evasão escolar, aparentemente motivada pelos programas de distribuição de renda, tipo “Bolsa Família” e pela sistemática aprovação em massa que assola as escolas de todo país, consegue maquiar os resultados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), diminuindo o tamanho do vexame.
Mas o bode continua lá, no meio da sala, exalando o mau cheiro do sistema apodrecido. É que as avaliações nacionais de conhecimento, como a Prova Brasil, e as internacionais, como o Programa Internacional para Avaliação de Alunos (PISA), têm resultado verdadeiras catástrofes: nossos alunos mal sabem ler e escrever (apresentando nível reduzido de letramento) e têm dificuldades assustadoras em resolver operações matemáticas básicas.
No ensino superior, programas de incentivo ao acesso, como o Prouni, revelam a perversa face da incompetência instituída. O Prouni é uma farsa, urdida com a aprovação tácita de uma academia repleta de doutores de papel e praticamente sem serventia prática. Resultado efetivo do programa: salas de aula cada vez mais cheias, professores estressados, profissionais despreparados lançados ao mercado como traças desorientadas, faculdades particulares ruins superfaturando o desastroso comércio.
Tudo isso, obviamente, resulta no coronelismo político que se espalha por todo país, com formação (e manutenção) de currais eleitorais de contornos bastante definidos.
Pode parecer catastrófico, mas é pior, bem pior.

Da inutilidade de certas manifestações culturais

Em Belém, onde resido e trabalho, acompanho os desfiles da Semana da Pátria... Pouco pão e muito circo!
As escolas desfilam por alas, como se Escolas de Samba fossem; cada ala um tema; cada tema uma aparente tentativa de resgatar uma discussão importante para a sociedade: meio ambiente, paz, saúde, trânsito, inclusão, esporte etc.
Seria comovente, não fosse risível.

Do not go to school. She's lost ...

Explico minha acidez: é que, a despeito da orientação do MEC quanto aos Temas Transversais (Ética, Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Pluralidade Cultural), o fato é que tais "discussões" somente comparecem como "enredo" para os "quesitos" a serem julgados.
Assim: julga-se a Escola (de Samba?) com melhor bateria, melhor harmonia, melhor evolução, melhores alegorias e adereços, melhores fantasias (?!!), melhor comissão de frente...
O sentido disso tudo? Nenhum.
E ainda que o desfile militarizado guarde muito de um mundo que já deveria estar extinto, o certo é que o formato ora em uso é de caricatural deformidade.
Crianças ao sol, bancando bobos de uma corte em decadência? Talvez seja uma imagem forte, mas é bem assim que vejo.

Das causas e contracausas da decadência da escola.


Um dos mantras mais propagados pela educação contemporânea é o de que a escola somente se sustenta plenamente se considerados quatro pilares: professores, alunos, gestores e pais. Uma rápida observação das escolas que têm conquistado bons resultados no IDEB, dentre outras avaliações, traz à superfície a atuação firme e consistente dos pais. Intromissão pertinente: por que então as escolas públicas demonstram tanta resistência a essa participação?! O fato é que a formação plena da Comunidade Escolar, com agregação dos pais e motivação dos professores, pode (e certamente o fará) levar à grandes conquistas... Enquanto gestores se mantiverem isolados, a escola terá apenas um caminho: o da ruína.

Voltarei a discutir isso mais detalhadamente. 


Uma questão de método...

Que Escola?!
Em 2008, o Investimento Público Direto em Educação por Estudante do Ensino Fundamental, de 5ª a 8ª séries ou Anos Finais, de acordo com o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) foi de R$ 2.946,00.
O que isso quer dizer exatamente? Quer dizer que por cada aluno do segundo ciclo do Ensino Fundamental foi gasto no ano de 2008 quase R$ 3.000,00 (os valores vêm aumentando). Isso representa um gasto de quase R$ 250,00 por mês para cada aluno de Escola Pública.
Agora imagine a seguinte situação: se você, pai/mãe, recebesse do Governo Federal um cheque de R$ 250,00 todo mês, por cada filho, para pagar a escola, que tipo de escola escolheria? Certamente não seria uma em que os professores faltam sistematicamente, em que as salas de aula são quentes e apertadas, com cadeiras muitas vezes quebradas etc.
Nos perguntamos: por que as escolas particulares conseguem ser mais eficientes e propiciar bem mais conforto a seus alunos, com mensalidades menores que essas? Isso pode irritar muita gente, mas a verdade é que tudo passa pelo Método, pela Gestão...
O fato é que a Escola Pública, modo geral, tem recebido recursos suficientes; o que falta é... Gestão Eficiente. E não falo, obviamente, desta ou daquela determinada escola; a falha é, amiúde, geral, com raríssimas exceções. Mesmo porque isso acontece em todos os níveis de ensino e em todo o país. Isso é uma vergonha!
Está na hora de se levar mais a sério esse negócio!

Respirando poesia...

IDEB 2009

Quer saber como anda a avaliação do MEC de seu Estado, de seu Município ou de sua Escola? Consulte o IDEB, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. É fácil! Clique AQUI!

Nebulosa Educação

Domingo cinzento: acúmulo de nuvens.
Penso em minhas crianças e no carinho que recebo delas.
Alegria e angústia: até quando seu futuro será comprometido por professores puramente mecânicos, sem qualquer vontade e compromisso? São tantos os que estão unicamente preocupados com o contracheque ao final do mês...
Talvez seja a hora de contratar, no lugar dos professores das escolas públicas, professores de escolas particulares... não pelos indivíduos, que não raramente são os mesmos, mas pela atitude...
Talvez as máquinas venham nos salvar com sua ausência de discriminação...
De todo modo, sigo com esperança...

Retorno...

Enfim, minha natureza me traz de volta... esse desejo quase suicida de dizer o que penso; sem filtros...
Antes do chão, um pouco de poesia; Frida Kahlo em momento sublime...

Recesso

Estou escrevendo um livro em que discuto a educação no Brasil de hoje. As idéias que viriam para este blog estão sendo concentradas (e analisadas) nele.
Por isso, temporariamente, este blog está em recesso.
Grande abraço!

Você sabe como se calcula o IDEB?*

Segundo o INEP:
O Ideb é um indicador de qualidade educacional que combina informações de desempenho em exames padronizados (Prova Brasil ou Saeb) – obtido pelos estudantes ao final das etapas de ensino (4ª e 8ª séries do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio) – com informações sobre rendimento escolar (aprovação).

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Há quem esteja excessivamente orgulhoso dos avanços nos índices do IDEB 2007. Eu não Estou. Confesso que vejo tudo com alguma desconfiança. Não no índice, com o qual até concordo, mas com a maquiagem que alguns Estados, Municípios e Escolas têm engendrado.

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Afinal, o IDEB considera as avaliações oficiais, mais as taxas de aprovação.

Em nossa experiência docente, temos visto muitos maquiarem as taxas, com aprovações em massa, desconsiderando totalmente o (des)preparo dos alunos.

Temos exemplos? Muitos. Basta dar uma olhada na tabela "Cópia de resultado final_ideb2007_com proficiencia pb saeb" disponível no site do inep (http://portalideb.inep.gov.br/).

Observando com cuidado, vemos um decréscimo do índice na proporção do avanço, da 4ª para a 8ª série do Ensino Fundamental e desta para o 3º ano do Ensino Médio. Quer dizer, quanto mais se avança, menos as maquiagens nas taxas de aprovação conseguem "resolver" o problema das baixas notas atingidas nas avaliações oficiais.

Vamos refletir sobre isso! Voltaremos à discussão!

Por uma nova Educação*

Não importa o quão revolucionários sejam os movimentos: o novo sempre sucumbe diante do velho.
Foi assim no processo judaico-cristão, em que a mensagem de um novo pacto de amor entre Deus e os homens acabou esmagada pelos velhos e mórbidos dogmas de castigo e dor impiedosos; tem sido assim infinitamente na Educação brasileira.
Em um tempo para além da pós-modernidade, de fragilíssimos paradigmas, de inovações humanas e tecnológicas, o que nós, Educadores, temos a oferecer? Ancestrais quadros-negros, ainda que verdes, ainda que brancos? Telas de data-show comportadas como se sofressem algum complexo do mesmo onipresente quadro-negro? Atividades lúdicas para "animar a festa", fingindo ser novidade a prática tão antiga de se buscar a atenção dos alunos...? Falando sério: o que temos realmente a oferecer? Qual o cardápio possível para além desse prato ruim e requentado?
A Educação do Brasil amarga uma das mais vergonhosas posições no ranking internacional. Terão razão nossos detratores? Terão razão quando afirmam sermos um povo atrasado, academicamente desprezíveis, despreparados de todo, mais afeitos e quem sabe melhor contemplados pela misericórdia de algum Deus com corpos bonitos e prontos mais para o esporte ou para o sexo? Terão razão aqueles que nos vêem apenas como o país da Amazônia e do Carnaval?
Os últimos números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), de 2005, são absolutamente desastrosos em todo o país. Do Sul ao Norte, abrindo uma longa trilha de desconforto, os resultados são assustadores. A Prova Brasil, que compõe esse índice e avalia as habilidades em Língua Portuguesa e Matemática, mostra que nossos alunos lêem muito mal e tem enormes dificuldades nas resoluções de problemas matemáticos.
Há, contudo, notícia pior: o Programa Internacional para Avaliação de Alunos (PISA), que faz pesquisa trienal de conhecimentos e competências de estudantes na faixa de 15 anos de idade, com participação de 57 países e mais de 400.000 alunos, aponta, em sua última edição, de 2006, que o Brasil se apresenta como um dos piores membros do grupo. Vale a pena um olhar mais apurado sobre os números:

Área
Médias dos países da OCDE
Médias do Brasil (convidado)
Leitura
492
393
Matemática
498
370
Ciências
500
390

Ora, se considerarmos que os melhores resultados para as áreas foram, respectivamente, de 556, 549 e 563 pontos, podemos ter uma idéia geral do incômodo que isso representa para todos os brasileiros, em especial para aqueles que como nós atuam na educação. É triste acordar para a realidade de que as nossas crianças têm demonstrado pouca capacidade para ler e interpretar textos, ou para operações básicas de matemática.
Afinal, para que tem servido nossas escolas? Para que horas e horas intermináveis de angústia torturante em aulas improdutivas? Para que tantos recursos financeiros gastos incessantemente? Para que tantos Cursos de Formação, tantas Capacitações, tantos esforços? Afinal, para que professores!?
Temos visto diariamente a velha prática da isenção de culpas; os professores, os educadores teimam que a culpa (se há) está sempre do outro lado do muro. É naquele lugar tão distante, chamado família, que se encontram todos os males; meninos e meninas desajustados, sem objetivos nem limites. É sempre ali, na família, que mora o pecado.
Mas, e a escola? E o professor?
A escola, como um cachorro bobo, vive a perseguir seu próprio rabo e nunca olha para frente, raramente olha para os lados, mas está sempre com um olhar fixo e apaixonado no passado. É comum ouvirmos que no tempo de alguém (e há sempre vários desses "alguéns" na educação), que naquele tempo as crianças aprendiam... e o professor, super-herói, não tinha qualquer dificuldade para ensinar. E isso, complementam, porque a família participava, havia respeito e disciplina etc.
Mas, parafraseando Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as famílias... E o tempo, completaria o Camões, agora é outro!
A família tradicional (atenção, educadores!), a família tradicional morreu, foi sepultada, se tirou a certidão de óbito e já vai tempo teve sua missa de 7° dia!
Quem não mudou foi o professor, herói patético da resistência; único lugar onde os paradigmas sobrevivem, saeculum saecularis. O professor que não consegue, coitado, perceber o admirável mundo novo, e insiste em viver em uma dimensão que há tempos foi soterrada pela modernidade.
Mas, não se vem aqui para inquisições... o que se quer saber é quais caminhos, quais trilhas podem nos tirar desse círculo viciado.
Contribuímos por ora com três propostas: primeira, que se faça uma urgente e (atenção!) significativa revisão curricular, com uma rediscussão ampla, que envolva toda a sociedade, dos Parâmetros Curriculares Nacionais; segunda, que se realize um recadastramento nacional dos professores, em todos os níveis e áreas de atuação, passando esses por uma Avaliação de Certificação para Exercício do Magistério, inclusive com permissões especiais para atuação regional e com foco na diversidade; terceira, que haja um concreto e efetivo encontro entre a Educação e a Modernidade, incorporando aquela novos valores e papéis sociais, reconhecendo a práxis vanguardista das novas tecnologias de informação e comunicação.
A revisão curricular se faz necessária; haja vista que em todas as discussões que são feitas na Educação, o foco é sempre outro; ora, a ausência da família; ora, o desajuste social provocado pelas novas mídias; ora, as condições estruturais do ensino; ora, o desânimo do professor frente às condições adversas, incluindo aí os baixos salários... São vários os argumentos, há tiro para todo lado... Mas, quando é mesmo que se vai fazer uma análise séria do currículo? Quando se vai perceber que a sociedade de informação exige um novo enfrentamento...?
Em nossa experiência docente, temos percebido a dificuldade dos alunos com dados e fatos que não lhes dizem absolutamente respeito: geografias descontextualizadas, histórias sem nexo, matemáticas ainda no tempo do ábaco, língua portuguesa repleta de gramaticalidades inúteis...
Isso em um tempo em que frações de segundo têm representado mudanças intensas na forma como os homens agem, pensam, ressignificam valores, constroem novos modos do comunicar...
Com tanta informação disponível para digerir e gerenciar, querer que nossos meninos e meninas decorem fórmulas matemáticas, físicas ou químicas! Pretender que decorem termos e conceitos! Impedi-los (ó, Deus ancestral dos tolos!) que usem calculadoras (observai, educadores, as incongruências)!
Por sua vez, a Avaliação de Certificação para o Exercício do Magistério, como pretendemos, vem a ser um aperfeiçoamento dos instrumentos do SINAES que, ao considerar a questão social, isenta o graduado em péssimos cursos superiores de licenciatura das culpas decorrentes da perversa relação entre ensino ruim e aprendizagem deficiente...
Ocorre que a preocupação social com o profissional mal preparado (quando não despreparado de todo) despreza o resultado final do processo, que no caso das licenciaturas, é a sala de aula e o processo de ensino-aprendizagem de nossas crianças... Quer dizer, há um cuidado social no presente e, por paga, se tem a destruição do futuro!
Professores e professoras sem o domínio mínimo das habilidades e competências necessárias às suas áreas de atuação formam o quadro mais comum. Matemáticos que não sabem calcular... Letrados que não sabem escrever, não gostam de ler e por conseqüência falam apenas o mínimo necessário para a comunicação vulgar... Geógrafos torturados por angústias ideológicas, mas sem qualquer noção de espaço... Historiadores que mal conseguem decorar datas... E por aí segue o longo cordão da incompetência geral...
Daí a proposta da certificação, de se “arrumar a casa”, separando o trigo do joio e impondo limites ao potencial destrutivo, corrosivo, daqueles que ocupam um espaço que não deveriam ocupar.
A fórmula é simples: uma vez feita a avaliação para certificação, se emite um documento que não apenas permite o amplo exercício do magistério aos aprovados, mas ainda funciona como um selo de qualidade, indicando ao mercado que ali está um profissional apto a desempenhar bem suas funções. Vale considerar que a certificação pensada deve valer para todos, incluindo aí a Educação Superior, onde a realidade em nada difere da Educação Básica.
Mas, e os reprovados? Aí, a grita será grande, o trem irá cheio e os direitos adquiridos serão proclamados!
Bem, recém-formados não têm direitos adquiridos e terão que passar então por um bom ciclo de revisões e estudos, reconstruindo sua formação, o que deverá ser bem saudável e a Educação só terá a agradecer. O impacto sobre os cursos péssimos também se fará sentir, já que esses serão naturalmente evitados, forjando ou seu fechamento ou um esforço concreto por sua melhoria.
Por sua vez, os profissionais que já estão no mercado, não podendo ser afastados de suas funções, se tornarão o público-alvo por excelência das Formações Continuadas, que deixarão de se limitar a pequenos encontros onde muito se gasta e pouco se aproveita, para se tornarem cursos de média duração, com enfrentamento real das carências detectadas.
Por fim, sugerimos que haja o encontro entre a Educação e a Modernidade, entendida esta como o espaço das novas tecnologias de informação e comunicação, que parece ser alvo de muita propaganda e pouco cuidado.
De fato, é reconhecido por todos os educadores que o uso massivo de computadores ligados à rede mundial tem resultado em um avassalador fluxo de dados os mais diversificados, com repercussão nos saberes, nas suas trocas e na conseqüente e constante atualização dos mesmos.
O problema acontece quando passamos todos por um intenso dilema shakesperiano, uma crise de identidade digital. Por um lado, nos orgulhamos dos avanços inquestionáveis no uso das tecnologias; por outro, como primatas assustados, atiramos lanças, paus e pedras na direção dos espaços de vivência dessas mesmas tecnologias.
Isso acontece, por exemplo, no Tocantins, quando limitamos, nas secretarias, salas de professores e nas bibliotecas, o uso de programas de comunicação instantânea on-line, tais como o Messenger e o Skype. Primeiro, porque limitamos os espaços de comunicação, que são fundamentos da nova ordem mundial; depois, porque sinalizamos com uma irretorquível censura, a proclamar que, como escrevemos no primeiro parágrafo, o novo sempre há de sucumbir diante do velho. Quer dizer, se nós, heróis patéticos da resistência, não conseguimos lidar com o fato novo, dane-se o fato novo!
E poderíamos nos estender ad infinitum nos exemplos, e poderíamos ainda muito avançar quanto às propostas da mais que necessária rediscussão dos modelos seguidos irrefletidamente pela educação brasileira. Por ora, deixamos os caminhos abertos para novas incursões... Acreditando! Apesar do tom um tanto amargo desse escrito... Acreditando! Porque é possível uma nova educação, que reflita o absoluto, fantástico, mal compreendido e admirável mundo novo!

Professor Sidnei Santana Pereira
Abril de 2008